A PROBLEMÁTICA DE FÁTIMA, à luz da
História:
Aparição, Visão/Alucinação e/ou Conveniência?
Visto que já conhecemos sobejamente
uma das explicações para o fenómeno religioso de “Fátima”, a dada pela
hierarquia da Igreja Católica, a “Aparição”, decidida 13 anos depois da notícia,
depois de muita polémica. É de todo importante conhecermos outras versões dos
factos, nomeadamente a História, as de carater laico, científico e de alguns
membros da Igreja Católica que discordam da hierarquia. Tivemos o cuidado de
selecionar, a posição e argumentos de pessoas reconhecidamente sábias, que são de
uma idoneidade moral e ética, intocável. Além de profundamente competentes para
avaliarem a matéria em discussão, com rigor e objetividade científica, são pessoas,
de diversos quadrantes da cultura e da ciência, reconhecidas no mundo pela sua
competência intelectual e honestidade ética. É importante termos conhecimento
abrangente, multilateral, para podermos ter uma opinião fundamentada sobre
factos muito complexos, como é o caso. Mais, temos de dar toda a informação
para que os nossos jovens possam desenvolver as suas convicções, os seus
raciocínios em liberdade e com a pertinência científica que a Escola Pública
cultiva.
O Fenómeno social de Fátima explicado por Alfredo Barroso 05/05/2017
Quem é Alfredo José Somera Simões Barroso?
BIBLIOGRAFIA: Alfredo Barroso
Cronista/jornalista/licenciado em direito/comentador de televisão/Ex deputado/
Secretário de estado/ Chefe da casa do presidente da República.
Condecorações:
Suécia Grã-Cruz da Ordem Real da Estrela Polar da Suécia
(28 de Janeiro de 1987)
Brasil Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul do
Brasil (15 de Abril de 1987)
Brasil Comendador da Ordem de Rio Branco do Brasil (21 de
Maio de 1987)
Noruega Comendador da Real Ordem Norueguesa de Santo Olavo
da Noruega (21 de Maio de 1987)
Senegal Grande-Oficial da Ordem do Mérito do Senegal (21 de
Maio de 1987)
Brasil Grande-Oficial da Ordem de Rio Branco do Brasil (21
de Maio de 1987)
França Comendador da Ordem Nacional do Mérito de França (22
de Maio de 1987)
Venezuela Grã-Cruz da Ordem do Libertador da Venezuela (18
de Novembro de 1987)
Ordem Soberana e Militar de Malta Grã-Cruz da Ordem Pro
Merito Melitensi da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de
Jerusalém, de Rodes e de Malta (9 de Maio de 1989)
Equador Grã-Cruz da Ordem do Mérito do Equador (19 de
Janeiro de 1990)
França Grande-Oficial da Ordem Nacional do Mérito de França
(7 de Maio de 1990)
Alemanha Ocidental Grã-Cruz do Mérito com Estrela da Ordem
do Mérito da República Federal da Alemanha Ocidental (17 de Julho de 1990)
Grécia Grã-Cruz da Ordem da Fénix da Grécia (15 de Novembro
de 1990)
Chipre Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Chipre (20 de Dezembro
de 1990)
Finlândia Grã-Cruz da Ordem do Leão da Finlândia da
Finlândia (12 de Março de 1991)
Países Baixos Grã-Cruz da Ordem de Orange-Nassau da Holanda
(25 de Março de 1992)
Chile Grã-Cruz da Ordem de Bernardo O'Higgins do Chile (5
de Março de 1993)
Espanha Excelentíssimo Senhor Grã-Cruz da Ordem do Mérito
Civil de Espanha (16 de Setembro de 1993)
Tunísia Grã-Cruz da Ordem da República da Tunísia (26 de
Outubro de 1993)
Marrocos Grã-Cruz da Ordem de Ouissam Alaoui de Marrocos
(20 de Fevereiro de 1995)
Portugal Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus
Cristo de Portugal (13 de Fevereiro de 1996)
Brasil Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco do Brasil (25 de
Julho de 1996)
Cronista
Livros editados:
Portugal, a democracia difícil (1975)[16]
Poemas rudimentares (1978)[17]
PS, fronteira da liberdade: entre militantes (1979)[18]
Janela indiscreta: diários, crónicas e retratos (1990)[19]
A televisão que temos (1995)[20]
Contra a Regionalização (1999)[21]
O futebol visto do sofá: do mundial de 1994 ao mundial de
2002 (2002)[22]
Guerras Limpas (2005) com prefácio de Mário Soares[23]
A Crise da Esquerda Europeia (2012)[24]
(Texto de: Alfredo
Barroso)
“O “Milagre
de Fátima” não existiu.
Negar as
“aparições” não é novidade, por parte de ateus e de agnósticos como eu.
Novidade, isso sim, é ouvir vozes da própria Igreja negá-la.
A liberdade e a democracia em
que vivemos há mais de 40 anos permitem que eu afirme, sem cometer qualquer
sacrilégio, que o “Milagre de Fátima” nunca existiu. É produto do
analfabetismo, ignorância e crendice de três crianças aterrorizadas pela imagem
de um Deus cruel, vingativo e castigador, tal como lhes era apresentado pela
pregação constante do terrível conteúdo do livro “Missão Abreviada”, do padre Couto,
publicado em 1859, destinado “particularmente (ao) povo de aldeia” para
“despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das
missões”.
A própria Igreja começou por não
dar crédito à narrativa das “aparições”, sobretudo à conversa de Lúcia – os
seus primos Francisco e Jacinta nunca abriram a boca – com uma Nossa Senhora
“sem cabelo e sem orelhas” à vista, que falava português fluentemente e que
Lúcia ganhou o hábito de interpelar com um “Vossemecê que me quer?” quando ela
lhe “aparecia”. E a verdade é que a Igreja só reconheceu oficialmente a
primeira “aparição” – houve imensas, como se sabe – 13 anos depois, em 1930, na
onda do golpe militar do 28 de Maio (de 1926) e já com Salazar no poder, a
preparar a institucionalização do regime ditatorial do Estado Novo. O “milagre de Fátima” tornou-se
uma arma de arremesso contra a República, a liberdade e a democracia, contra o
ateísmo e o comunismo, numa clássica aliança entre “a espada e o hissope” sob a
égide do ditador Salazar.
Negar as “aparições” não é
novidade, por parte de ateus e de agnósticos como eu. Novidade, isso sim, é
ouvir vozes da própria Igreja negá-las. Como é o caso do professor
universitário Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa,(2)
ao afirmar, em entrevista ao “Expresso”: “É evidente que Nossa Senhora não
apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo.” Acrescentando, mais
adiante: “É necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa.
Porque, mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe
mostraria o inferno a uma criança?” Fê-lo a mãe de Lúcia! Mostrou-o aos filhos,
influenciada pela descrição feita no livro “Missão Abreviada”. Assim: “O
Inferno é uma cova de bichos e uma fogueira muito grande e quem faz pecados e não
se confessa vai para lá e fica sempre a arder, sem nunca de lá sair.” Isto
ainda antes das “aparições”!
Mais significativas, todavia,
por se tratar do bispo-delegado do Conselho Pontifício para a Cultura do
Vaticano, são as recentes declarações de D. Carlos Azevedo feitas aos jornais “Expresso” e
“Público”. Diz ele que “Nossa Senhora não aprendeu português para falar com
Lúcia” e que “a presença de Maria não vem do céu por aí abaixo”. Quanto aos
três pastorinhos, diz que “as crianças tiveram um carisma profético” (seja lá
isso o que for) e que não houve “aparições”, mas sim “visões” (1): “Esse é o
termo exacto. As visões, de vários tipos, são fenómenos místicos, espirituais,
não físicos.” E explica que “precisamos de usar a linguagem exacta para não
cair no ridículo”. Pobre irmã Lúcia! D. Carlos Azevedo considera mesmo “espantoso como
crianças daquela idade, num lugar sem cultura teológica, recebem uma mensagem
com uma densidade tão forte e implicações tão grandes na história da
humanidade”. Aqui, o bispo-delegado parece imbuído do espírito infernal da já
referida “Missão Abreviada”. Não o escandaliza nem espanta – ao contrário do
que sucedeu ao padre Mário de Oliveira (3) – que “aquela Senhora que as
crianças dizem ver e ouvir, nos dias 13 dos meses de Maio a Outubro de 1917,
apesar de se dizer vinda do céu, isto é, de Deus, não tenha aparecido para as
libertar do medo e convidá-las à alegria de viver. Pelo contrário, começa por
lhes anunciar, às duas mais novinhas e também mais aterrorizadas, que brevemente
as vai levar para o céu, maneira eufemística de dizer que elas vão morrer antes
do tempo”. Para serem “santificadas” cem anos depois”.
Notas:
(1) Conceito de ”visão”
(dicionário de português) Imagem que se
julga ver, geralmente em sonhos ou por efeito de uma alucinação. (No texto
aparece por oposição a “Apariçaõ”, ou seja não apareceu nada exterior aos
pastorinhos).
(latim visio, -onis)
substantivo feminino
1. Acção ou efeito de ver.
2. Percepção pelo órgão da vista
"visão", in Dicionário Priberam da Língua
Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/vis%C3%A3o
[consultado em 15-11-2019].
4. Vista, aspeto, presença.
5. Aparição sobrenatural, fantástica.
6. Imaginação vã.
7. Ideia sem fundamento.
"visão", in Dicionário Priberam da Língua
Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/vis%C3%A3o
[consultado em 15-11-2019].
2) Quem
é o Padre: Anselmo Borges?
É Padre da Sociedade Missionária Portuguesa. Estudou Teologia (Universidade Gregoriana, Roma),
Ciências Sociais (École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris) e
Filosofia (Universidade de Coimbra). Lecionou Filosofia e Teologia na
Universidade Católica Portuguesa e no Seminário Maior de Maputo, Moçambique. É
docente de Filosofia (Antropologia Filosófica, Filosofia da Religião, Ética,
Mulheres e Religiões) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Algumas das suas publicações: Marx ou Cristo?; Janela do (In)visível; Religião:
Opressão ou Libertação?; Morte e Esperança; Corpo e Transcendência; Deus no
século XXI e o futuro do cristianismo (coord.); Janela do (In)finito; Deus e o
sentido da existência; Religião e Diálogo Inter-Religioso (esta última editada
em 2010 pela Imprensa da Universidade de Coimbra). É colunista do “Diário de
Notícias” sobre temas de religião.
(3)
Padre: Mário de Oliveira
Dirigiu
várias paróquias, foi professor de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel
II (posteriormente, Liceu Rodrigues de Freitas). Foi director do jornal
"Fraternizar". Em 1999 escandalizou meio mundo com o livro “Fátima
Nunca Mais”. Agora está de volta à polémica com “Fátima S.A.”, construído a
partir da análise e confronto de documentos oficiais da Igreja Católica sobre
as chamada aparições aos pastorinhos da Cova da Iria. Conhecido como Padre
Mário da Lixa, lançou o livro “Fátima S.A.”,
assente numa releitura dos documentos oficiais compilados ao longo dos
anos pelas estruturas do Santuário com o objetivo de comprovar a veracidade e a
autenticidade histórica das chamadas aparições da Cova da Iria, onde refuta
toda a teoria da aparição de Fátima… In. https://expresso.pt/dossies/diario/2015-05-08-Fatima-e-uma-empresa-multinacional-religiosa
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Pais_de_Oliveira
As aparições que não ficaram na
história
Catarina Pires | Notícias
Magazine
15/05/2016 No mundo inteiro, em dois mil anos de
história do cristianismo, o Vaticano reconhece apenas 16 aparições de Nossa
Senhora.
Catarina
Pires ( Jornalista e editora formada em Ciências da Comunicação)
15/05/2016
No mundo
inteiro, em dois mil anos de história do cristianismo, o Vaticano reconhece
apenas 16 aparições de Nossa Senhora. Uma delas é a visão dos três pequenos
pastores em Fátima, em 1917. Mas, em Portugal, há relatos de outras aparições
da Virgem Maria e videntes que continuam a mobilizar milhares de peregrinos.
Uns são apoiados pela Igreja, outros considerados fraudes.
É comum baterem‑lhe à porta, no lugar do Barral, uma aldeia no meio das montanhas, em Ponte
da Barca. São pessoas que vêm de longe e não a conhecem, mas querem saber histórias sobre o mistério que envolve o
seu pai. «Perguntam‑me o que aconteceu, como se passou, o
que o meu pai viu», diz Matilde Alves, 78 anos, a única filha viva do pastor Severino Alves, a quem, acreditam os
padres da paróquia e a população, terá aparecido Nossa Senhora, em 1917, três
dias antes de surgir na Cova da Iria a Lúcia dos Santos, Jacinta e Francisco
Marto. Antes dos três pastorinhos, outro pastor terá visto a Virgem Maria, que
os católicos acreditam ser a mãe de Cristo. «Mas aqui no Barral ninguém se
interessou pelo caso», lamenta Matilde.
Quando tinha 10 anos, guardava
gado e rezava o terço todos os dias, Severino garante que viu Nossa Senhora
numa ramada. Estávamos a 10 de maio de 1917. A notícia circulou pela aldeia,
mas o acontecimento acabou por ficar esquecido. Depois do 25 de Abril de 1974,
a Igreja Católica decidiu investigar o relato para saber se valia a pena
iniciar o processo eclesiástico de reconhecimento da aparição. «Fui a casa do
pastor, já adulto, e gravei duas cassetes com o que ele contou e entreguei‑as ao bispo de Viana do Castelo», diz José
Augusto Pedreira, que em 1978 fora encarregue por D. Júlio
Tavares Rebimbas de recolher a versão do
vidente. «Não me
pareceu que fosse invenção. Mas depois não se avançou
mais.» Na altura era sacerdote mas em 1982 tornou‑se
também bispo da mesma diocese. «Na minha opinião houve
qualquer coisa fora do comum. Mas não se
desenvolveu um processo pois havia debilidade na mensagem. Por razões de natureza humana ou sobrenaturais, o fenómeno não teve
continuidade», como sucedeu na Cova da Iria.
«Desde que Fátima foi aprovada
seria muito difícil outra situação destas em Portugal ter a concordância do
Vaticano», diz o antropólogo Aurélio Lopes, autor do livro Videntes e
Confidentes [ed. Cosmos] sobre as aparições da Cova da Iria. Para a Igreja
estes «milagres» têm de ser raros, para não se banalizarem. «E mesmo Fátima
demorou alguns anos a ser aprovado.»
A Igreja é
extremamente prudente no reconhecimento deste tipo de fenómeno. Segundo o investigador
norte‑americano
Michael O’Neill, especialista no assunto, há registo de mais de duas mil aparições marianas desde o Concílio de Trento (1545), mas apenas 16 foram
formalmente reconhecidas pela Santa Sé. Entre elas estão as aparições de
13 de maio e 17 de outubro de 1917, testemunhadas pelos três pastorinhos. No
site MiracleHunter.com, dirigido por O’Neill, onde estão reunidos testemunhos,
documentos oficiais e histórias das aparições que têm sido comunicadas pelo
mundo, há mais cinco relatos de visões de Nossa Senhora em Portugal. Uns têm
apoio da Igreja, outros são considerados atos à revelia e outros ainda são
vistos como tentativas de imitação do ocorrido em Fátima. O certo é que
todos deram origem a locais de culto, com santuários e capelas de aparições e
foram visitados por milhares de peregrinos.
No Barral, a Igreja e a Câmara
de Ponte da Barca prepararam uma série de iniciativas para marcar o centenário
das aparições a Severino Alves, que morreu em 1985. «Queremos divulgar o
Santuário de Nossa Senhora da Paz», diz o pároco local, Moisés Correia,
lembrando que o que aconteceu ali em plena Primeira Guerra Mundial foi muito
parecido com o que sucedeu em Fátima. «A mensagem tem até semelhanças, como o pedido
de oração, a reconversão e o fim da guerra.» Mas entre 1917 e 1967, nada se
fez. «Só depois o cónego Avelino da Costa recuperou o caso.» E, em 1978, o
então padre José Augusto Pedreira. Hoje, a Igreja reconhece o local como
culto mariano e o bispo atual até vai participar nas comemorações. «Vou
presidir à cerimónia no último domingo de maio», diz Anacleto de Oliveira. «Por
não ser reconhecida, não significa que [a aparição] não tenha acontecido.»
O mesmo entusiasmo com um
«milagre» vive‑se em Balasar, na Póvoa de Varzim. «Vamos fazer que a Alexandrina seja mais conhecida
pelo mundo», disse o arcebispo de Braga,
Jorge Ortiga, no passado dia 25 abril, no final da cerimónia na igreja de Balasar, para recordar a
beatificação, há 12 anos, por parte do Papa João Paulo II, de uma mulher da
terra, que terá tido visões de Cristo e de Maria. Está em curso um projeto para o
novo santuário, a ser erguido nos próximos anos. Terá capacidade para 2500
pessoas sentadas e será feito em memória da beata Alexandrina, que há mais de
meio século leva milhares de peregrinos àquela zona. Alexandrina Maria
da Costa nasceu ali em 1904. Aos 14 anos, quando costurava no primeiro andar da
sua casa, saltou da janela para se proteger de uns homens que teriam tentado
atacá‑la.
Tendo ficado gravemente ferida, aos 21 anos acabaria por ficar paralisada,
passando o resto da vida acamada. Segundo a Igreja, viveu o sofrimento de
Cristo, teve visões de Nossa Senhora e Jesus e
passou os últimos 13 anos a «alimentar‑se
só da eucaristia», com a comunhão diária. Morreu em 1955.
«Ela via Nossa Senhora e fazia
muitos milagres», diz Maria Moura Carneiro, 73 anos, que viveu a infância na
porta ao lado da casa da beata, no lugar do Calvário. E era amiga das primas de
Alexandrina. Uma delas, Maria Adelaide Nogueira, tem hoje 70 anos. «Eu ia lá
para casa quase todos os dias.» Maria Adelaide viu a terra onde costumava
brincar passar a ser inundada por uma multidão que queria ver «a santinha de
Balasar». «Faziam‑se filas à porta de casa dela
para a conhecerem.»
Adelaide
Alves, 75 anos, é outra prima de Alexandrina. Recorda‑se das
visitas, de alguns objetos, das medalhas, santinhos e anéis
que Alexandrina lhes dava. «Mas como éramos pequenas destruíamos tudo», lamenta. Aliás, pouco percebia do que se passava. «Achávamos
que era apenas uma pessoa doente», diz Maria Moura Carneiro. «Depois vieram os
milagres e soubemos dos êxtases que tinha à sexta‑feira
em que, mesmo paralítica, saía
da cama.» Nessas alturas, ditava o que
alegadamente lhe diziam Jesus e Nossa Senhora.
(Em 2004, quando Alexandrina foi
beatificada por João Paulo II – devido à cura de uma emigrante que tinha
Parkinson –, foi o «confirmar de tudo o que ouviam». Naquele dia, cerca de cem
mil pessoas foram a Balasar. Já no último dia 25 de abril estiveram no local
cerca de 4500 fiéis. «Todos os anos passam por aqui uns trezentos mil crentes e
150 mil visitam o túmulo», diz o padre da paróquia, Manuel Neiva. O
pároco pretende divulgar os escritos de Alexandrina (cinco mil folhas A4) que
estão a ser estudados pelo teólogo Alexandre Duarte, da Universidade Católica.
«Ela vivia fenómenos místicos e alguns dizem respeito a Nossa Senhora. Há um
relato em que é coroada como rainha.» As mensagens, referem os textos
eclesiásticos, eram essencialmente a pedir oração. «São experiências místicas»,
concluiu D. Jorge Ortiga.
Na mesma
altura em que Alexandrina despertava a curiosidade de cada vez mais peregrinos,
outro local do país tornou‑se também
destino de milhares. Em
Agosto de 1946, Vilar Chão, em Alfândega da Fé, passou a ser frequentada por
todos os que queriam ver Amelinha, uma rapariga de 22 anos estigmatizada com
uma cruz na testa e outra nas costas da mão esquerda, que garantia ver e falar
com Nossa Senhora. E que, segundo confirmavam o padre da localidade,
Humberto Flores, e o seu irmão, médico, tinha sido curada pela Virgem de uma
doença que lhe paralisavam a perna e o braço e que chegou a impedi-la de comer
devido a uma ferida na boca. Durante quatro anos, Amélia da Natividade
Rodrigues Fontes foi alvo de culto fervoroso. E em 11 de outubro de 1946, segundo os jornais da época,
levou mais de quarenta mil pessoas a Vilar Chão para verem o milagre do Sol,
que lhe tinha sido anunciado por Nossa Senhora. Ajoelhados, a cantar, a rezar e
a gritar «milagre, milagre», os crentes olharam para o céu, onde, descreveu o
repórter do Comércio do Porto, se via o Sol a «rodar e rodopiar» com «uma
auréola avermelhada».
Mas, em 1951, Amélia foi
internada nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Depois da observação clínica,
a veracidade dos sinais que tinha no corpo foi abalada e nunca mais regressou a
casa. Ainda está
viva, tem 93 anos e vive em Bragança, numa casa de acolhimento, afastada. «Está
velhinha e já quase não fala», diz Ermelinda, 86 anos, uma das melhores amigas,
recusando-se a desvendar se Amélia lhe confessou a verdade sobre as aparições.
«Não posso contar nada. Prometi que não dizia. Mas ela não queria nada do que
aconteceu e não gostava de publicidade. E dizia muitas vezes que “com Deus não
se brinca”.» Recentemente, Amelinha
recebeu a visita de Aida Borges, que nasceu em Vilar Chão em 1975, cresceu a
ouvir as histórias da «santa» da terra e escreveu um livro inspirado nesta
história, Corpo sem Chão, lançado em 2013. «Confirmou toda a história, validou
tudo», adianta Aida Borges.
Amélia contava, segundo os
jornais da época, que quando tinha 16 anos terá recebido uma «visita» da mãe de
Jesus, que lhe disse que ia ficar doente. Seis anos depois, por sugestão do
padre, pediu a cura à Virgem, o que se concretizou em julho de 1946. «O padre
sugeriu que para confirmação das suas afirmações pedisse a Nossa Senhora que
lhe colocasse qualquer sinal indicativo das suas aparições», lê-se da edição de
14 de dezembro de 1946 de O Século Ilustrado. E a jovem apareceu então com uma
cruz na testa. «Soube‑se depois que era feita com
tintura de iodo», diz Alfredo Peixe,
filho do fotógrafo oficial de Amelinha.
Alfredo conviveu de perto com o fenómeno, pois
através dos irmãos
Flores, o padre e o médico, o pai tinha conseguido o exclusivo das fotografias
da vidente. «Só ele tinha autorização para fotografar a rapariga.» Para isso,
passava horas em casa de Amelinha a brincar com o filho do médico. «Um dia descobri debaixo da cama
uma cesta cheia de objetos de ouro, como cordéis, medalhas, crucifixos.» Eram
doações dos fiéis que visitavam o local. Alfredo Peixe, hoje com 79 anos,
garante que a história «foi inventada» para que Vilar Chão se tornasse a «nova
Fátima». «Eles até chegaram a falar na possibilidade de Amelinha morrer,
mas tiveram medo. Foram eles que planearam tudo. O milagre do Sol foi uma espécie de eclipse e todos os
supostos milagres eram encenados, como num dia em que caíram gotas de água do
céu no quarto da Amélia: na realidade, apagavam‑se as luzes e ela com uma seringa fingia tudo.»
O pai,
admite, sabia da farsa, mas o negócio falou mais alto. «Ele vendeu milhares de
estampas, as mais pequenas a cinco escudos e as maiores a dez. Nesse tempo
ganhou cinco mil contos de réis», diz Alfredo Peixe, que se recorda de ir com o
pai, no Opel Capitan, de Moncorvo para Vilar Chão para entregar ao padre sacos
cheios de fotografias. Hoje, os originais estão no Núcleo Museológico da
Fotografia do Douro Superior, onde está o espólio do fotógrafo de Amelinha,
Zeca Peixe. «São milhares de fotogramas desde 1884», diz Arnaldo Duarte Silva,
proprietário do museu.
«Até meados do século XX, os
videntes eram essencialmente crianças», diz o investigador Aurélio Lopes.
«Depois começaram a ser mulheres, de 20 ou 30 anos.» Foi o caso de Amelinha, de
Alfândega da Fé. E
também o de Maria da Conceição Mendes Horta, que ficou conhecida como Santa da
Ladeira. Seguida por uma multidão que acreditava nas suas visões de Nossa
Senhora e na sua capacidade de curar pessoas, falar com entidades divinas e
levitar, Maria da Conceição morreu em 2003, com 72 anos. Para trás, deixava
quatro décadas de culto.
Começou
quando tinha 30 anos, no início da década de 1960, mas só depois do fim do
Estado Novo se tornou um fenómeno de grande dimensão. «A seguir ao 25 de Abril,
reabre o espaço da Ladeira do Pinheiro, que tinha sido encerrado entre 1972 e
1974, e dá-se o auge do culto de Maria da Conceição. Em 1975 e 1976 milhares e milhares de pessoas iam
aos sábados vê-la», diz Aurélio Lopes, que baseou a tese de doutoramento em
Antropologia Cultural no caso desta «santa» não reconhecida pela Igreja
Católica. Mais recente é o caso que envolve Fernando Pires, um angolano de 70
anos que garante ter visões e receber mensagens de Nossa Senhora desde 1999.
Foi para estar perto do «vidente», que vive em Portimão, que no primeiro
domingo deste mês se juntaram cerca de quinhentas pessoas num pequeno vale,
rodeado de sobreiros, em São Marcos da Serra, no quilómetro 706 do IC1. Passavam
alguns minutos do meio‑dia quando Fernando Pires se
ajoelhou e começou a escrever uma longa mensagem
que, alega, lhe era transmitida por Nossa Senhora. Enquanto isso, outros
rezavam o terço. No final, ainda ajoelhado,
iniciou um ritual que costuma fazer todos os anos e que grava, colocando os
vídeos no YouTube e numa página do Facebook que relata as suas aparições (Nossa
Senhora Mãe da Bondade). Exibe uma hóstia branca na ponta da língua, baixa a
cabeça, reza, e quando a levanta de novo mostra algo de cor vermelha dentro da
boca «Era a hóstia a transformar‑se num
naco de carne com sangue», explica António Santos, de 72 anos, presidente da Associação Mãe da Boa Vontade, que tem como objetivo «divulgar as aparições».
«Nossa Senhora aparece-me, sim.
Mas não quero falar até que a Igreja tome uma posição», diz Fernando Pires. As
relações com a instituição são complicadas. Há uns meses ainda se realizou uma
reunião entre o pároco de São Marcos da Serra e seguidores do vidente que
querem construir uma capela naquele vale rodeado de pinheiros. Mas para a
Igreja, segundo o bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, o encontro «serviu para
confirmar que as pessoas envolvidas nestas supostas visões não mereciam
credibilidade». Além disso, refere, «a diocese do Algarve, desde o
episcopado de D. Manuel Dias até ao tempo presente, nunca reconheceu a
veracidade dessas manifestações nem autorizou qualquer culto naquele lugar»,
onde pelo menos uma vez por mês se juntam centenas de pessoas. Mas António
Santos – que admite que «uns acreditam, outros não» – não duvida do que vê: «O
sobrenatural é sempre uma coisa complicada. Só quem está lá sente e percebe.»
FÁTIMA: UMA QUESTÃO DE FÉ
«Ninguém
pode demonstrar de forma científica que Nossa Senhora apareceu em cima de uma
azinheira em Fátima», diz Moisés Espírito Santo. (4) «É tudo uma questão
de fé.» Para o antropólogo e sociólogo, a população nem sequer precisa que uma
visão seja aprovada pela Igreja para confiar nela. «Há centenas de relatos de aparições em freguesias de
todo o país, que depois se transformam em tradições e passam a fazer parte do
património cultural.» Certo é que os relatos de aparições marianas são comuns em Portugal. «Isso
está relacionado com o papel de maior proximidade da figura da mãe, e não do
pai, nos países do Mediterrâneo», diz o especialista em religião. «A seguir a
Deus, é quem está em primeiro lugar», diz o bispo de Viseu, Ilídio Leandro. O
reconhecimento oficial dado pelo Vaticano às aparições na Cova da Iria de 1917
tornou o santuário de Fátima um dos maiores locais de culto mariano do mundo.
Segundo as leis da Santa Sé, estabelecidas no Concílio de Trento (1545-1563),
cabe ao bispo local averiguar a autenticidade da aparição fazendo uma
investigação. Em 1974, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma lista de
normas a seguir, como a verificação da qualidade pessoal dos videntes, a
garantia de que não há erros doutrinais ou morais na história e a certeza de
que o vidente não tem doença psiquiátrica. Depois de dada a aprovação do bispo
local, não é necessária luz verde do Vaticano para legitimar a aparição.
Aliás, há 28 aparições
aprovadas pelos bispos no mundo e apenas 16 reconhecidas pela Santa Sé.
É o caso de Fátima. Na época, as autoridades agiram com prudência e fizeram uma
investigação discreta. Em
1919, o bispo de Leiria-Fátima, D. José da Silva, nomeou uma comissão para
analisar o caso, interrogando Lúcia e a sua família. Em outubro de 1930, o bispo
declarou as visões «dignas de crédito»”. Foram precisos 13 anos e a
mudança do regime político em Portugal…
4) Quem é Moisés Espírito Santo? Detentor de
uma obra literária e científica notável…
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Moisés_Espírito_Santo)
Moisés Espírito Santos, é Professor Catedrático Jubilado da Universidade Nova
de Lisboa. Sociólogo, etnógrafo e etnólogo, Moisés Espírito Santo destacou-se
pela introdução e desenvolvimento da Sociologia Rural e da Sociologia das
Religiões na estrutura curricular do ensino superior em Portugal. Autor de uma
extensa obra publicada nestas áreas, Moisés Espírito Santo destacou-se ainda
pela investigação etno-linguística, realizada a partir do estudo da toponímia
antiga presente no território português, promovendo a interdisciplinaridade
entre as matérias da sua especialidade e as disciplinas clássicas,
designadamente a História, a Arqueologia e a Linguística.
Nota do Professor de História que faz
a gestão desta página:
De facto, as
aparições marianas são muito numerosas, sobretudo em alturas de enorme aflição
coletiva como sejam as grandes guerras onde a fome, a doença e a enorme
mortandade exalta o sentimento religioso e o apelo à virgem, aos santos e a
Deus… O professor de História tratando-se de demonstrar os horrores da 1ª
grande Guerra, faz alusão a este fenómeno da fervorosa religiosidade, perante
as terríveis consequências, demográficas, sociais e económicas, daquela guerra,
sobretudo na Europa, surgiram muitas aparições por toda a parte, as populações
desesperadas exaltam as divindades… É um
fenómeno recorrente ao longo da História da humanidade… Se algum aluno
pergunta, como perguntam, se realmente a Santa apareceu, é dever do professor
expor toda literatura existente acerca do assunto. Há quem não acredite, há
quem duvide e procure informação. Há que já mudou de opinião e há quem faça uma
leitura religiosa do facto movido pela crença e fé. Ao professor de História
compete fazer uma leitura racional, movido pelo rigor cientifico pelos factos. Ouvindo,
lendo tudo o que existe e é publico, Inclusive pessoas ligadas à Igreja
Católica, como foi o caso do professor
universitário, inquestionável autoridade na matéria (1), Anselmo Borges,
Padre da Sociedade Missionária Portuguesa, ao afirmar, em 16/04/2017, entrevista ao “Expresso”: “É evidente que
Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo.” Vale a
pena ler toda a entrevista… (https://expresso.pt/sociedade/2017-04-16-Padre-Anselmo-Borges-E-evidente-que-Nossa-Senhoranao-apareceu-em-Fatima).
Além da crença defendida pela maioria da hierarquia da Igreja Católica, que defende a tese da aparição real, há
outras explicações que rejeitam a “aparição”, no todo ou em parte, aceitando
apenas a ideia de “visão, alucinação”, (Alucinação significa o mesmo que visão)
ou outro fenómeno psíquico, como por exemplo uma ilusão ou erro de
perceção) alegando que as crianças, sob
pressão emocional, tem dificuldade em distinguir o real do imaginário. E, na
realidade não viram nada de real… Justificando, argumentando, que, sendo
crianças, tem dificuldade em distinguir o real do imaginário e, num contexto de
fome, morte, medo/temor, profunda religiosidade, essa confusão é ainda mais fácil
e evidente (em 1917 houve uma enorme
mortandade que em algumas regiões de Portugal levou um terço da população,
devido à fome e doenças associadas como o tifo a tuberculose e a gripe
espanhola que teve um efeito devastador.
Alegando, também, que havia enorme rivalidades entre a Igreja e os
republicanos, entre a crença e o ateísmo, um aproveitamento da “aparição” por
parte dos monárquicos e da igreja” que estavam a ser despojados do poder
político, dos bens, e expulsos do país pelos republicanos, (a quem chamavam
ateus e agentes do diabo), que tomaram o
poder em 1910. A aceitação da “aparição pela Igreja só acontecei em 1930, já
com Salazar, as forças conservadoras apoiadas pela igreja utilizaram a
“aparição de Fátima” em seu benefício político…
Nas questões
da religião, mesmo quando os alunos pedem a opinião do professor este nunca a deve
dar, tal pode influenciar a perceção e raciocínio dos alunos… Mas é dever do
professor, dar toda a informação legítima, rigorosa, para que eles possam tirar
as conclusões que entenderem, á luz dos grandes objetivos educacionais,
nomeadamente do desenvolvimento do raciocínio, espirito critico e autonomia,
nomeadamente na compreensão da história e do mundo atua e da liberdade de
religião… Esta prática pedagógica multilateral, promove o desenvolvimento dos
níveis cognitivos, Racionalidade, Criatividade, que incluem o Espírito Crítico
e a Autonomia. É dever do professor ensinar aos alunos, proporcionar-lhe as
condições de aprendizagem com toda a informação, num contexto da escola laica,
sem dogmatismos nem preconceitos, promovendo tolerância, a liberdade e
felicidade dos futuros cidadãos… A religião independentemente das igrejas sejam
elas quais forem, é um direito constitucional, faz parte da liberdade
individual de cada um… Mas também é verdade que é um direito de todos os alunos
a toda a informação… Tempos houve em que os docentes tinham que ensinar que era
o Sol que girava em torno da terra porque a religião dominante na altura assim o
exigia, sob pena de acusação de heresia, (todos os que discordavam dos princípios e “verdades” da
igreja), e sacrifício, pelo fogo, do
professor na praça pública… Também foi assim depois do terramoto de Lisboa,
quem contrariou a igreja dizendo que não foi castigo de Deus contra o Marquês
de Pombal, mas sim um fenómeno da Natureza, acabou na fogueira… Hoje a
civilização vive outros tempos em que as religiões, no mundo ocidental, do qual
fazemos parte, afirmam-se através de um espaço próprio privilegiando o culto, a
fé, debatendo-se em resolver problemas medonhos, (a falta der vocações, o
descrédito, a pedofilia, o ódio, a intolerância, a violência, Deus como arma de
destruição e combate aos inimigos)…Dentro delas mesmas… A independência da
ciência e do currículo da escola democrática, felizmente é uma realidade que
assenta no pluralismo, tolerância e primazia do Espírito científico… De facto compete
às escolas o ensino da História e das Ciências, em Liberdade, com rigor, sem
preconceitos nem dogmatismos, dar a informação toda aos alunos para que possam
crescer em liberdade e desenvolverem a racionalidade sem equívocos conceptuais
nem dogmatismos, ou seja sem preconceitos castrantes da plena formação dos
humanos… Sabendo bem que, como diz o Padre Anselmo, a religião não pode
competir com o racionalismo das ciências, sob pena de se dar ao descrédito,
deve antes imbuir-se do espirito recatado da fé e dos templos…A questão de
Fátima é um facto social total e por isso é objeto de estudo de múltiplas
disciplinas, incluindo a História…O Historiador não se rege por atos de fé, nem
dogmas, ao contrário exige provas, evidências, tem considerar objetivamente
todas as possibilidades, todos os intervenientes, todos os interesses,
desinteressadamente, com o único intuito de apurar a verdade ou o que mais se
aproxima dessa verdade… Á sociedade compete compreender este conceito de Escola
Laica, mesmo que dele discordem e, consequentemente , deve colaborar com os professores. Os professores têm a obrigação
de proporcionar condições ótimas de aprendizagem e desenvolvimento a todos os
alunos, dando todas as informações, necessárias para o entendimento da
História, independentemente de quaisquer religiões que os alunos tenham ou não
tenham… E, caso tal se revele necessário, face a quaisquer dúvidas, é dever dos
professores não terem partido nem religião, serem isentos, defenderem
unicamente o direito dos alunos a terem toda a informação... É do interesse de
todos os agentes que promovem este conceito de escola laica, instituída em
Portugal, em democracia, prosseguindo a desejada formação integral dos nossos
alunos, a colaboração reciproca, num contexto de confiança mutua…
Vale a pena refletir nesta resposta do
Padre Anselmo ao jornalista do expresso, publicada, é de uma transparência e excelência
impar… em 16 de abril de 2017
“A mãe de Jesus surgiu em
Fátima? (Pergunta do jornalista)
Posso ser um bom católico e não
acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as
crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa,
mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É
preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não
apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetiva. Uma experiência religiosa
interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um
delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é
necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo
para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o
inferno a uma criança?”
Dizemos nós: Sim, que Mãe mostraria o inferno a
crianças tão inocentes, em vez de mostrar o Céu? Mais, que mãe falaria do
comunismo, (comunismo que na realidade nunca existiu na Rússia)(5), a umas crianças analfabetas quando morriam
milhões de crianças de doença e de fome no mundo? Quem Mãe diria aos seus
filhos que iriam morrer quando ainda estavam a despontar para a vida?
Poderíamos continuar a questionar… Porque não aparece a Senhora Mãe de todas as
crianças, em Africa onde morrem milhões
devido à fome, doença e ao abandono… Anselmo abre este caminho para que se
posso perceber que A Mão de Cristo não esteve em Fátima, nunca poderia ter
estado, pois o seu discurso é amor às crianças, não é aquele, de terror, que a
Lúcia revelou… Não há amor, apenas contradições…
5) Há data da primeira “visão” ainda nem
tinha ocorrido a Revolução Russa dita de comunista. Só em outubro de 1917 é que
a revolução se radicalizou, até ai fora apenas uma revolução burguesa como
tantas outras que ocorreram anteriormente, nomeadamente em Portugal… O
comunismo nunca existiu na Rússia após a radicalização… Tudo não passou de uma
ditadura sanguinária que impos com mão de ferro os interesses imperialistas que
sempre caraterizaram a Rússia dos czares, agora ao mundo todo, sob a capa do
comunismo… Estranho que nossa senhora, sabendo falar português, não soubesse
distinguir comunismo de uma reles e sanguinária ditadura, responsável pela
tortura e morte de dezenas de milhões de pessoas que só queriam viver em
liberdade… E, pior ainda, morrendo tantas crianças de fome, naquela altura
e ao longo do século XX, representando ela todas as mães, nem uma palavra de
esperança. Nossa senhora é amor e a mensagem “ouvida” pela Lúcia apenas revela
frieza, política, não revela nada das palavras de Cristo, que como sabemos não
se imiscuía na política, pelo contrário…
OUTRA PROPOSTA MUITO INTERESSANTE DE
LEITURA:
Fátima: “100
anos de uma história mal contada”, por Rui Ramos (Escritor, Jornalista E
Historiador) Doutorado em Ciência Política pela universidade de Oxford em 1997.
Enquanto historiador, especializou-se na História de Portugal do século XIX
e do século XX.
15 de novembro de 2019